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Artigo de Erick Faleiro, diretor executivo da Your Vacation
Se você trabalha com multipropriedade, já ouviu a pergunta em alguma mesa de reunião, no corredor das salas de vendas ou no ponto de captação: “Com quanto tempo de mercado alguém está pronto para virar gestor?”
Para mim, tempo é um péssimo critério. Ele é fácil de medir, mas não mede o que importa. Tempo pode te dar repertório, pode te dar casca, pode te dar histórias. Mas tempo também pode te dar vícios, pode te dar arrogância, pode te dar centenas de desculpas.
O que forma um líder não é o relógio, é maturidade.
O que “maturidade” significa de verdade nesse jogo?
Maturidade profissional, no nosso setor, começa quando você para de pensar só no seu número e começa a pensar em todo o sistema. E maturidade pessoal começa quando você para de reagir apenas como um vendedor e começa a agir como gestor de pessoas, mesmo sem ter essa posição oficialmente.
Aquele que segue o que acredito em SER antes de TER. Você já deve ter conhecido uma pessoa assim, que não tinha nenhum crachá de gerente, mas que, onde estava, colocava respeito às demais pela postura, pelo tom da conversa e pela forma como ajudava quem precisava.
Porque liderança, no fim do dia, é gente.
Não existe CRM que compense um líder que não sabe:
- ler ambiente;
- sustentar pressão sem despejar pressão;
- corrigir sem humilhar;
- cobrar sem destruir;
- formar sem depender apenas de talento natural.
Nosso mercado é intenso, tem muita emoção. É saber tomar os “nãos” que recebemos, é lidar com os arrependimentos, é euforia em um dia, tristeza em outro.
Se você não entende de gente, você não entende do jogo.
O que você precisa dominar antes de pedir a cadeira de gestor
Tem duas coisas que ninguém pula:
A primeira: processo. Quem não entende processo, vira gestor que “apaga incêndio” e chama isso de rotina. No nosso mercado e em mercados gigantes, processo não é burocracia, é proteção.
A segunda: pessoas. E aqui tem uma lógica inversa: tem consultores, fechadores e captadores excelentes que viram péssimos gestores. Por quê? Porque, na maioria dos casos, eles tentam liderar como vendem: no convencimento, na pressão, no carisma, no “deixa comigo”.
Líder não pode mais ser o melhor do time, tem que ser o melhor em formar o time. Não tem mais ligação em fazer, e sim em fazer o time fazer.
A verdade que pouca gente aceita: um profissional com 2 anos de experiência pode ser um líder melhor que um com 15 anos de experiência no mercado. Eu já vi profissionais com pouco tempo de mercado que viram líderes rápido porque aprendem rápido, ouvem rápido, assumem erro rápido e corrigem rápido.
E já vi gente com mais de uma década que continua sendo um bom executor… e só. Quando sobe, vira o gestor “de humor”, o gestor que centraliza, o gestor que fala de cultura e pratica ansiedade.
Tempo de casa não pode garantir liderança.
O critério real é outro: você melhora as pessoas ao seu redor ou você só performa bem sozinho? Se a sua presença faz o time crescer, você está perto. Se a sua presença faz o time andar em volta de você, você está longe.
Inteligência emocional para lideranças
Consultor, Fechador e Profissional de Captação emocionalmente inteligente percebe o que o cliente não fala. E o líder emocionalmente inteligente percebe o que o time não aguenta mais. As pessoas podem até tolerar um processo ruim por um tempo, mas não toleram um líder ruim por muito tempo.
A régua do time é a sua régua. Seu padrão emocional vira o padrão da operação. Se você é instável, a equipe fica instável. Se você é adulto, a equipe amadurece.
Encerramento
Para encerrar, quero trazer uma reflexão de Aristóteles. Ele coloca uma régua que o mercado em geral respeita pouco. Ele separava aristocracia de oligarquia: os melhores (aristocratas) governam para o bem comum; os oligarcas governam para proteger o próprio interesse. No nosso mundo, isso aparece assim: tem gente que quer a cadeira para ter poder, e tem gente que quer a cadeira para ter responsabilidade.
Então a pergunta correta não é “quantos anos eu tenho de mercado?”.
Mas: “Você já é adulto o bastante para liderar, mesmo quando ninguém te deu o cargo?”.
Porque cargo não te transforma em líder. Ele muitas vezes só revela quem você já era quando ninguém estava olhando.

- Erick Faleiro é autor do The Black Book e Diretor Executivo da Your Vacation, com mais de 13 anos de experiência no mercado imobiliário de tempo compartilhado, liderou 16 operações em diversas localidades do Brasil.



