Maya Garcia Câmera falou sobre a escolha do destino, público-alvo, novas modalidades de multipropriedade, distratos, venda de alto impacto, entre outros assuntos

 A multipropriedade imobiliária entrou na pauta do Inside Imob novamente. Em Live realizada na noite de ontem, 01/03, no Instagram do evento de inteligência imobiliária, a empresária e advogada Maya Garcia Câmera, discorreu sobre vários aspectos deste segmento, através de uma conversa com o fundador da Inside Imob, o empresário Edgar Ueda.

Além de advogada especialista em direito imobiliário, Maya possui grande expertise no desenvolvimento e gestão em empreendimentos de multipropriedade. O primeiro lançamento de um projeto neste modelo foi realizado pelo seu pai na década de 1980, o Paúba Canto-Sul, em São Sebastião-SP, e ainda está em operação. ‘’Fomos um dos primeiros desenvolvedores do país, muita antes da Lei 13.777 de 2018. E um dos mais bem-sucedidos, pois tivemos quase zero distratos. O primeiro adquirente do empreendimento ainda está conosco’’.

A advogada também foi uma das coautoras do projeto da Lei de Multipropriedade, a Lei 13.777, aprovada em 2018. ‘’A lei não criou a multipropriedade. A lei veio para dar mais segurança jurídica para os empresários e adquirentes, pois já existia uma indústria que estava investindo no modelo’’.

Ela diferenciou juridicamente os modelos de multipropriedade e timeshare. A multipropriedade é uma propriedade, com escritura e matrícula no cartório. Já o timeshare é um direito de uso, e normalmente utilizado em hotéis já prontos e em operação.

Destinos da multipropriedade

A empresária explicou que a multipropriedade no Brasil é muito atrelada ao segmento turístico, desenvolvida em destinos onde normalmente o adquirente passaria suas férias. ‘’Por isso, há muitos empreendimentos em destinos com praia, em Gramado, etc, dependendo do potencial turístico’’.

Porém, Maya ressaltou que há outras modalidades de multipropriedade que ainda não são exploradas no Brasil. Segundo ela, o imóvel fracionando pode ser comercial, profissional ou corporativo. ‘’O modelo faz sentido para médicos ou consultórios médicos, ou qualquer profissão em que a atuação é de forma autônomo. Há multipropriedade para safras, extração de petróleo, agrícola, para poder explorar e compartilhar as despesas de aparatos mecânicos que têm valores muito altos’’.

Outra tipo de modelo apontado pela advogada é a multipropriedade de experiência, para religiosos, para mulheres, para idosos, entre outros públicos. ‘’Este formato não deve necessariamente estar em locais turísticos’’.

Investimento em férias x rentabilidade com o negócio

Caso a incorporadora queira lançar um empreendimento no modelo de multipropriedade com o objetivo de investimento e rentabilidade para os adquirentes, o projeto deve passar por uma regulamentação da CVC (Comissão de Valores Mobiliários). Maya salientou que, apesar deste formato não ser o foco dos empreendimentos no Brasil, não há nada que impeça de ser realizado, como também que um condo-hotel seja transformado em multipropriedade.

Para a empresária, os projetos de multipropriedade devem encontrar o equilíbrio entre a parte de condomínio e hotelaria. ‘’O adquirente da multipropriedade está adquirindo uma segunda residência e espera serviços hoteleiros, ele não quer ter nenhum trabalho com manutenção ou limpeza’’, explicou Maya. ‘’Mas temos que tomar cuidado par não irmos muito para a hotelaria e tratar o proprietário como um hóspede’’.

Modelo deve ser vantajoso

De acordo com a advogada, não importa qual o público comprador do empreendimento, classe C ou AAA, o projeto da multipropriedade sempre deve ser mais vantajoso que pagar uma viagem, se hospedar em um hotel ou comprar uma casa de férias

Porém, Maya ressaltou que a multipropriedade deve ser oferecida para o público certo, que enxerga as vantagens do modelo. Ela exemplificou com o mercado fracionado de helicópteros no Brasil, que os primeiros lançamentos focaram para um público que tinha condições de comprar e manter um helicóptero, com uma ideia de economizar. ‘’Não era isso que este público queria’’, disse. ‘’Nossos estudos na época mostraram que o verdadeiro público para helicópteros compartilhados eram as empresas que gastavam com táxis aéreos’’.

Organização da multipropriedade

Maya explicou que como a multipropriedade é muito mais complexa que a incorporação imobiliária tradicional, também há vários atores envolvidos no projeto. Além da incorporadora imobiliária, há uma comercializadora especializada no modelo de negócios, uma empresa de intercâmbio de férias, uma administradora condominial, uma gestora hoteleira ou operadora hoteleira. Para organizar a gestão é necessário um gerente de projetos. ‘’Ele irá colocar todos esses atores para conversarem’’.

Venda de alto impacto e distratos

De acordo com a empresária, há mais distratos no modelo de multipropriedade e parte deste resultado é por conta do processo de venda de alto impacto. ‘’É mais emocional e de experiências e, muitas vezes, são mal feitas’’.

Porém, ela ressaltou que mesmo com outro formato de vendas os distratos ainda irão ser mais comuns que na venda imobiliária tradicional por dois fatores: ‘’O comprador não estava preparado para comprar o imóvel, no período de reflexão (sete dias) pode decidir desistir da compra; e é um imóvel de segunda residência, o que normalmente já tem um índice de distratos maior que a primeira residência’’.

Segundo Maya, o mercado está se mobilizando para buscar outros formatos de vendas, através de corretoras imobiliárias, vendas pela internet ou outros meios. ‘’O mercado percebeu que a venda de impacto não é o único modelo’’, finalizou.